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segunda-feira, janeiro 21, 2013

Os Machos Ômega


Via de regra, eu discordo da linha de reflexão do articulista Pondé, da Folha de SP, mas dessa vez, concordei com ele em boa parte do que discute no artigo "Homens que não bancam" publicado hoje.
Desde bebê, somos ensinados pelo papai e principalmente pela mamãe, a criar para si a sofrida necessidade de idealizar e percorrer o caminho ético de ser um "Macho Alfa".
Vejo que isso entra em choque com o notável desenvolvimento do papel feminino em sociedade, mostrando que estuda mais do que os homens e disputa cara-a-cara as competências profissionais e cotidianas antes delegadas a nós, candidatos "naturais" a provar que conseguem "bancar" tudo no mundo e também tudo para elas.
Falo isso a partir de experiência própria, pois como assistente social, onde 95% da categoria é do sexo feminino (conf. levantamento do CFESS e, 2005 [que precisa ser atualizado, pois é nítido o crescimento do sexo masculino no meio profissional]), se colocar como paladino do "Macho Alfa" é assinar, de saída, que não conseguirá bancar, de fato, as exigências e enfrentamentos da profissão. Porém, quando me lembro que, enquanto recém-formado assistente social, uma colega, ao me entrevistar para seleção em um espaço de trabalho, me perguntou: "você é um homem mole?", fico confuso...
Por outro lado, no plano social, compartilho com o autor ao visualizar que o universo feminino ainda passeia bem gostoso nessa necessidade tradicional e conservadora de, mesmo com autonomia (moral e financeira nas mãos), muitas mulheres nos classificam nesse ranking como maneira de escolher ou manter um relacionamento, seja afetivo ou não.
É alta a reclamação de que "somos pouco no mercado" e que nos falta "sensibilidade, parceria e sinceridade" para "conquistar" a presença feminina. Ou seja, a possibilidade de ser conquistado fica onde quando não ser quer reproduzir o tipo "Macho alfa"?
Não consigo imaginar que o velho ditado "Atrás de um grande homem, sempre tem uma grande mulher" ainda acaricia os ouvidos femininos.
Porquê "atrás" e não "ao lado"? Nem na frente e nem atrás, ao lado mesmo, como parceiros dispostos a compartilhar os enfrentamentos cotidianos.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Perfeita felicidade?



Eram mesmo sábias as palavras que José Saramago nos deixou sobre a perfeição, quando dizia que "há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes."

E a felicidade em ver e ser acompanhado por essa "esfera"? Indescritível! Você se sente pleno, absoluto, poderoso diante da vida. Chega-se até começar a aprender a seguir o voo dessa "esfera", mas ela não permite que aprendamos tudo, e é nesse momento que ela vai embora...

Vai, deixando a eterna questão do porquê não temos o "direito" de ter uma vida perfeita para sempre. E as aspas são mesmo de questionamento, pois ao invés de apreciar as idas e vindas da "esfera", escolhemos com mais facilidade a postura mais fácil, que é a de lamentar a perda, se vitimizar, se autoatribuir "direitos" e exigências precípuas que, em geral, não condizem com a realidade à sua volta.

Estava aqui e por que se foi a "perfeição"? Para onde ela foi?

Talvez ela vá rodear aquele/a de coração livre, menos impregnado de bolor histórico. Ou então, vá convidar com sua beleza a sensibilidade justamente daqueles/as que tem "certeza" de que estão no caminho da perfeição, mesmo ruminando crenças de que o outro não deve ser perfeito.

Fico avistando no horizonte e no tempo...

domingo, fevereiro 12, 2012

"12 Homens e uma Sentença"



Indico a peça "12 Homens e uma Sentença".
É ideal para refletir sobre os preconceitos que nos impelem a julgar fatos sociais e ações humanas, como se não tivéssemos responsabilidades perante a sociedade e também quando nos prendemos fervorosamente às nossas certezas e parâmetros pessoais sobre o que é certo ou errado.

domingo, dezembro 18, 2011

A irresistível ética capitalista?


Lendo a matéria "A feroz indústria do casamento na China" me fez pensar como um país dito comunista que se abre ao capitalismo de forma avassaladora, conseguirá manter a crítica aos valores capitalistas que se agregam aos valores tradicionais da humanidade como o casamento e a descendência?
Aliás, se houver esta tal crítica, não é? E havendo, partindo do pressuposto de que esta seja avessa à hipocrisia, como resistirá à mundial ética capitalista atual (financeira), na medida em que a China será, em breve, a maior economia do mundo?
Vale a pena ler! Bem como refletir sobre as sutilezas dos convites cotidianos para nos mantermos alienados.

domingo, novembro 27, 2011

"Viver sem Tempos Mortos"



Ontem, tive uma experiência cultural que me ofereceu condições fundamentais para uma reflexão crítica da minha humanidade.
Primeiramente, destaco a atriz Fernanda Montenegro, 80 anos de idade, 65 anos de carreira, que ao literalmente encarnar Simone de Beauvoir no monólogo teatral de 60 minutos: "Viver sem Tempos Mortos", estabeleceu um marco na história do teatro brasileiro e, ao mesmo tempo, contribuiu com fundamentos para a cultura brasileira discutir com mais primor a liberdade em face do gênero feminino.
Em segundo lugar (e com decidida menor importância), vem a reflexão sobre mim. Eu, do sexo masculino, educado primariamente com base na afirmação de que esta condição biológica é superior à feminina, me senti absolutamente ridículo não somente ao me comparar com a postura social de Baeuvoir e de Fernanda Montenegro, mas em extensão a todo movimento nesta direção feito por qualquer mulher do mundo.
Valido esta ridicularidade mesmo tendo consciência de que permaneço percorrendo numa direção para uma filosofia de vida em que a cada dia precise menos do machismo para me sustentar socialmente. De fato, é humanamente enriquecedor questionar e até romper com alguns privilégios sociais que o machismo dá ao sujeito do sexo masculino, na medida em que escolhemos por posições legítimas vinculadas aos valores do feminismo.
Mas, minhas demoradas conquistas históricas nesta lida não se equiparam a um dia sequer que alguma mulher conte como histórico na legitimação de sua autonomia em sociedade.
Beauvoir constatou que o mundo é masculino. Continuarei tentando alimentar seu sonho de que seria melhor se não se precisasse constatar isso, para que os dois gêneros possam conviver "sem tempos mortos".

segunda-feira, agosto 29, 2011

Escravos da Etiqueta?


Jamais imaginei que precisaria me manifestar contra algo que faz parte do passado, ou seja, o passado retorna maquiado, nos mostrando que talvez  as coisas não avançaram tanto ou que estamos dando abertura para o que é mais sórdido na humanidade.

Falo da escravidão dos trabalhadores em confecção que, no excelente artigo de José de Souza Martins, é discutido.

Pelo visto, para protestar e não colaborar, daqui a pouco teremos de andar nus por aí.

Deixar de comprar a marca já é um bom começo. Ou já somos escravos das etiquetas??

quinta-feira, abril 28, 2011

O Trato da Essência


Não é somente terapias ou respostas externas quando se quer ver mudanças em seu cotidiano.
É certo que mudanças iniciam quando você, primeiramente, as querem.
Mas elas somente se constróem quando você identifica valores que também devem ser transformados dentro de sua essência.
É somente quando sua postura ética muda o dia-a-dia que sua vida se transforma na história.  

quinta-feira, abril 14, 2011

Entre o bem e o mal?


O vídeo acima mostra as últimas declarações do rapaz que praticou o massacre no Rio, divulgadas pela polícia.

Minha intenção não é propagar as intenções dele, e sim mostrar um exemplo de como a reprodução alienada de valores alimentam as mais diversas situações, levando em conta, é claro, que o rapaz possuía doença mental não tratada.

Penso ser uma boa oportunidade para refletirmos se ainda é necessário valorizar o maniqueísmo, ou seja, a filosofia da antiguidade que inaugurou a sistematização moral entre o dualismo absoluto entre o "bem e o mal". Este valor moral ainda permanece incorporado no senso moral da sociedade e é instrumento eficiente para fundamentar ações irracionais.

quarta-feira, março 23, 2011

"Maioridade" Intransigente

Comemorar a "maioridade" do Código de Ética dos Assistentes Sociais é afirmar que a perspectiva da emancipação humana não é sonho, mas um caminho de reconhecer que é possível uma sociedade sem exploração do homem pelo próprio homem.
Que este instrumento continue sendo nossa "bússola" na direção social que defendemos, enquanto profissão.
Clique aqui para ler a manifestação do CFESS.
Clique aqui para baixar o Código de Ética dos Assistentes Sociais.

sexta-feira, março 18, 2011

Ética e Voluntariado no Serviço Social

Esta dissertação de mestrado é um convite a discutir as contradições do voluntariado, incluindo a polêmica do ponto de vista dos valores sociais.

Clique aqui para acessar a dissertação.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Assistente Social Espancado por Protestar

Na tarde de ontem, o companheiro Vinicius foi brutalmente e convardemente agredido por Policiais Militares e Guardas Civis Metropolitanos, porque protestava contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo.

Podemos, de fato, comemorar a conquista da democracia, após a DITADURA MILITAR?

Total solidariedade a Vinícius e aos seus, que o acompanham em tratamento cirúrgico no hospital!

Veja mais:


Leia sobre em: http://emdefesadaeducacao.wordpress.com/2011/02/18/brasil-de-fato-pm-reprime-protesto-contra-o-aumento-das-tarifas/

terça-feira, outubro 26, 2010

O Legal Obscuro do Aborto

Me atrevo a dar uma palavrinha masculina sobre o aborto.
Bom, já ouvi de várias mulheres que a opinião masculina sobre isso é desprovida de concretude, pela obviedade de eu não poder engravidar. Porém, não me furto a ter opinião sobre pelo fato de ser de outro gênero ou apenas por uma questão moral, mas pela consciência política em relação à cidadania presumida para um estado laico.

Sobre moralidade: sabiam as mulheres (e talvez até alguns homens) que há moralidade conservadora correspondente ao aborto para os homens? A masturbação é pecado mortal para o cristianismo católico e tem duas raízes de fundamento: a atitude egoísta de ter prazer individual e...o assassinato dos espermatozóides...
Isso mesmo! Para São Tomás de Aquino (pai do Tomismo e fonte do Neotomismo), os espermatozóides geravam a vida e, portanto, teriam de ser externados apenas em relações sexuais com fins procriativos, do contrário estaríamos "matando-os". Existiu até pena de morte para o réu...
É claro que a amplitude social de reprodução desta característica moral masculina não permaneceu com o fôlego que ainda tem o aborto, e é aí que eu queria chegar.
Essa moralidade não se tornou inócua apenas porque a ciência comprovou que o desenvolvimento biológico humano inicial depende também do óvulo feminino, mas porque a base machista e patriarcal que fundamenta nosso cotidiano autoriza os homens a transgredirem, pela legitimação que lhes dão em face da culpa moral que deve recair sempre nas costas femininas, em detrimento da efetivação da sua plena liberdade, inclusive, de exercitar sua reflexão moral acerca do que pensa e faz com seu corpo, assim como para os homens é aceito.
Em outras palavras, com as que fundamentam a laicidade conquistada pela humanidade à duras penas (e vidas!), quero dizer que uma sociedade laica deve garantir políticas públicas que atendam vulnerabilidades de âmbito coletivo, e que tais ações sejam alheias de julgamento judicial em relação à moralidade que se impõe, ou seja, a liberdade da mulher ser favorável ou não ao aborto, não previne nem acolhe a demanda de outra que possa se situar num contexto semelhante, mas tomar decisões éticas distintas.
Um Estado Laico deve garantir a liberdade de reprodução moral religiosa e, ao mesmo tempo, não se constituir com fundamento em nenhuma e, assim, atender a TODAS as vicissitudes sociais com universalidade e qualidade.
Chega de mulheres morrendo em nome da moralidade machista!

segunda-feira, março 22, 2010

Manual da Felicidade Normal



A proposta deste manual é oferecer reflexões e esclarecer idéias sobre “ser feliz”:

  1. Cultive, carinhosamente, a sinceridade na sua conduta ética, mas não a exerça se a verdade a ser exposta ponha em risco sua comodidade em usufruir um cotidiano agradável;
  2. Para não perder relacionamentos, reafirme publicamente sua fé em algo passível de dúvida, mesmo que sua essência clame por respostas concretas;
  3. Reafirme o seu amor a alguém mesmo sem amá-lo, garantindo o prestígio de um sentimento que só existe de fora para dentro e não mais o contrário;
  4. Em nome de uma trajetória de sentimentos “bons” que duram “todos os dias de nossas vidas”, negue o que sente pelo outro a si próprio e omita ao outro sua percepção sobre o que ele sente por você;
  5. Os que não mais são amados devem usar seu cinismo como instrumento na intenção de gerar motivação de ódio que justifique a depreciação histórica do amor que se foi;
  6. Para se criar um bom drama, agregue fatos semelhantes, mesmo que incongruentes, em uma justificativa moral que lhe dê potência de vítima tão grande quanto a falsidade moral do seu próprio drama;
  7. Se você for do sexo masculino e se afirma socialmente como homem, não ponha fim num relacionamento “firme” com uma mulher e acumule dezenas de amantes para justificar a tal “tendência genética” da conquista, bem como para preservar a “liberdade de amar”;
  8. Se você for do sexo feminino e se afirma socialmente como mulher, não ponha fim num relacionamento “firme” com um homem e acumule desejos de amar outros homens para justificar a tal “tendência genética” da pureza, bem como para preservar “o amor eterno”;
  9. Seja passional até o limite que leva as suas razões delimitarem sua incapacidade de lidar com suas próprias paixões;
  10. Seja racional até o limite que leva as suas paixões delimitarem sua incapacidade de lidar com suas próprias razões;
  11. Pareça ser o que não é ou pareça ter o que não tem, pois o caminho de parecer é mais curto que os demais, mesmo sendo ilegítimo;
  12. Se perceber a sua reputação ameaçada, apóie-se no preconceito mais próximo, mesmo que este seja vil. Assim, você preserva sua imagem, ainda que esteja se sentindo um lixo;

  1. Não busque a intelectualidade, pois sair do modo primário de se pensar a vida implica em tomar posições que certamente lhe fará sair de condições cômodas, bem como lhe acarretará perdas óbvias.

REGRA PRIMORDIAL: Condene a hipocrisia do outro, utilizando a sua como fundamento e justificativa.

IMPORTANTE: Siga os procedimentos acima para alcançar a possibilidade de SER FELIZ aos olhos dos INFELIZES.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Negro Drama: A agudez étnica em face de valores ilegítimos

Negritude Painting, "La Jungla" by Cuban-born Afro-Chinese Painter Wilfredo Lam

A seguir, analisamos a perspectiva ética da arte presente na primeira parte da música “Negro Drama”, de autoria de Racionais Mc´s, interpretada por Edy Rock e Mano Brown.






  • Negro Drama, por Racionais Mc´s (primeira parte) – análise de fundamentos éticos.






Negro drama,


Entre o sucesso e a lama,


Dinheiro, problemas,


Inveja, luxo, fama.






Os autores apresentam ponto de vista sobre a condição do negro no Brasil, referenciando o “drama” com centralidade desta concepção, situando-o como fundamento do curso histórico do negro em seu cotidiano.


Em se tratando de cotidiano, temos elementos valóricos e morais que compõem a “trama” da negritude nesta categoria, sendo o dinheiro, os problemas, a inveja, o luxo e a fama, fatores e condições que encarnam as contradições.






Negro drama,


Cabelo crespo,


E a pele escura,


A ferida, a chaga,


A procura da cura.






A cor da pele e os aspectos étnicos do negro são citados pelo autor para sustentar que tais características são as que vestem o preconceito racial no Brasil, ou seja, as derivações étnicas são postas em sociedade como pressupostos de valores preconceituosos, ligados a situações indesejadas, como uma doença que precisa ser curada ou, no mínimo, velada.






Negro drama,


Tenta ver


E não vê nada,


A não ser uma estrela,


Longe meio ofuscada.






Aqui o autor estende sua concepção crítica do cotidiano social do negro, sobre as possibilidades que o mesmo possui de vislumbrar suas perspectivas de vida que, neste contexto, são ofuscadas pela realidade da desigualdade e discriminação social que oferecem “sonhos de estrela” bastantes distantes de realização.






Sente o drama,


O preço, a cobrança,


No amor, no ódio,


A insana vingança.






Diante da distância em acessar condições sociais e afetivas com a qualidade que o capital oferece a quem lhe dá acesso sem preconceito, o negro, na forma artística desta estrofe, se apresenta como ser em constante cobrança social por conta de precisar pagar um “preço” mais alto do que o comum das relações de competição e convivência humana.


Acessar sentimentos e valores universais é para o negro, neste contexto, desafios em escala desproporcional, remetendo a deflagração de questionamentos e atitudes viscerais, ligadas ao resultado da experiência destas possibilidades.






Negro drama,


Eu sei quem trama,


E quem tá comigo,


No drama que eu carrego,


Pra não ser mais um preto fudido.


O drama da cadeia e favela,


Túmulo, sangue,


Sirene, choros e velas.






Os autores evidenciam, portanto, a clareza que têm sobre como se dão as relações sociais e cotidianas em torno das possibilidades e oportunidades éticas que são presentes para o negro, em referência a um enfrentamento constante para evitar o submetimento a uma condição de inferiorização e fracasso social.


Incluem também as situações éticas e fatídicas que comumente expõe o negro no Brasil, a partir das vulnerabilidades que são submetidos socialmente.










Passageiro do Brasil,


São Paulo,


Agonia que sobrevive,


Em meia às zorras e covardias,


Periferias, vielas e cortiços,


Você deve tá pensando,


O que você tem haver com isso.






Trazem para a música a angústia da naturalidade negra e paulistana, de modo a evidenciar a exposição histórica desta etnia à precarização da moradia e à depreciação ética existente nas relações violentas que muitas vezes estão inseridos e que passam a ser referência de valor social, em detrimento do acesso às oportunidades gestadas para benefício do desenvolvimento humano de forma universal.


Indagam, ao final da estrofe, qual o papel que a sociedade tem neste contexto.






Desde o início,


Por ouro e prata,


Olha quem morre,


Então veja você quem mata,


Recebe o mérito a farda


Que pratica o mal,


Me ver


Pobre, preso ou morto,


Já é cultural.






Neste ponto, os autores denunciam de forma crítica a concepção histórica oficial do Brasil que valorizam o colonizador, o bandeirante, o senhor-de-engenho como heróis nacionais, pelas suas “conquistas” e “bravuras”.


Mas que, também neste enredo, omitem a dívida social e moral que resulta desta concepção histórica e que, de maneira e roupagem diferenciadas, ainda debitam de nossas possibilidades éticas de se fundar uma concepção histórica a partir dos subalternos e subalternizados: os que morreram e ainda morrem em nome de um “bem social” que não inclui a população negra, marginalizando-a culturalmente a fins trágicos, às penalidades óbvias e, muitas vezes, à morte desejada.






Histórias, registros,


Escritos,


Não é conto,


Nem fábula,


Lenda ou mito,


Não foi sempre dito,


Que preto não tem vez,


Então olha o castelo irmão,


Foi você quem fez cuzão,






Em continuidade à estrofe anterior, os autores afirmam que tal leitura histórica, bem como os fatos, se expressa no concreto e não são obras fictícias, mesmo sabendo que tais condições já estão no campo da banalidade ética.


E o “castelo” que os autores citam, se refere aos sonhos fabulosos oferecidos pelo capital, patrocinados historicamente pelas classes dominantes.










Eu sou irmão,


Dos meus trutas de batalha,


Eu era a carne,


Agora sou a própria navalha,


Tim..tim..


Um brinde pra mim,


Sou exemplo, de vitórias,


Trajetos e glórias.






A partir deste ponto da letra musical, os autores passam a resgatar os rebatimentos dos enfrentamentos que o negro colhe enquanto vitórias.


Evidentemente que falam de suas vitórias enquanto artistas reconhecidos socialmente, mas também retratam todas as conquistas sociais dos negros brasileiros, as quais são compostas de poucos companheiros e que, de tão intensas e sofridas, lançam a sensação de que são vitórias ímpares e que devem ser exemplos diante de tantas frustrações.






O dinheiro tira um homem da miséria,


Mas não pode arrancar,


De dentro dele,


A favela,


São poucos,


Que entram em campo pra vencer,


A alma guarda,


O que a mente tenta esquecer,






Aqui os autores apresentam a realidade ética do negro que, conscientemente, alcança mobilidade social diferente e com mais oportunidades do que a maioria está submetida.


Ter referencia moral da favela não quer dizer que o negro que ascendeu socialmente permaneça se sentindo e se relacionando socialmente de forma subalterna. Porém, isto não significa também que os dilemas e fatos presenciados no passado são descartados nos fundamentos desta trajetória histórica, percorrida por poucos, seja por coragem, seja por oportunidade raramente aproveitada.






Olho pra trás,


Vejo a estrada que eu trilhei,


Mó cota


Quem teve lado a lado,


E quem só ficou na bota,


Entre as frases,


Fases e várias etapas,


Do quem é quem,


Dos mano e das mina fraca,






Os autores, nesta estrofe, analisam suas relações sociais no âmbito dos rebatimentos ocorridos na trajetória histórica, evidenciando o nível de participação social e suas influências éticas neste processo.






Negro drama de estilo,


Pra ser,


E se for,


Tem que ser,


Se temer é milho.


Entre o gatilho e a tempestade,


Sempre a provar,


Que sou homem e não covarde.






Neste ponto, evidencia-se a práxis que o negro desenvolve no seu cotidiano social, de modo a sedimentar uma postura de enfrentamento das mazelas sociais, sólida o suficiente para responder às vicissitudes mais agudas que surgem neste contexto.






Que deus me guarde,


Pois eu sei,


Que ele não é neutro,


Vigia os ricos,


Mais ama os que vêm do gueto,






Os autores recuperam suas religiosidades para fundamentar valoricamente a ótica que possuem sobre supostas possibilidades sobrenaturais que influenciam as relações humanas.


Destacam, nesse intento, duas classes sociais (ricos e pobres) que estariam sob a tutela de uma mesma divindade, dando preferência sentimental para os pobres e vigilância para os ricos. Aqui, contraditoriamente, parecem justificar que a divindade, mesmo “permitindo” a desigualdade, está do lado dos que mais sofrem em decorrência desta.






Eu visto preto,


Por dentro e por fora,


Guerreiro,


Poeta entre o tempo e a memória.


Ora,


Nessa história,


Vejo dólar,


E vários quilates,


Falo pro mano,


Que não morra, e também não mate,






A negritude, enquanto propositura cultural de resistência social é exaltada pelos autores nesta estrofe, de modo a simbolizar a poesia de suas letras musicais como arma numa guerra que inclui o que se registra na memória e o que se passa no cotidiano social.


E para os negros que alcançam a constituição desta postura, os autores deixam a recomendação ética de que, mesmo tendo a “riqueza” em mãos, não cedam às ousadias que levam à morte ou às que a provocam para os que concorrem ou ameaçam esta conquista.






O tic tac,


Não espera veja o ponteiro,


Essa estrada é venenosa,


E cheia de morteiro,


Pesadelo?


É um elogio,


Pra quem vive na guerra,


A paz nunca existiu,


No clima quente,


A minha gente soa frio,


Vi um pretinho,


Seu caderno era um fuzil.


(...)






Os autores terminam a primeira parte da música, remetendo ao avançar veloz do tempo como ponto de alerta para quem se propõe a superar a condição de inferioridade social.


Ao ressaltar a dureza a ser vivenciada nesta trajetória, os autores evidenciam as contradições encontradas na periferia das cidades (locais onde se concentra a maioria da população negra no Brasil) de modo a contrastar o alcance que alguns valores sociais nestes âmbitos sócio-territoriais, ou seja, o tempo que se passa é o mesmo para todos os humanos, mas para os que vivenciam o cotidiano da periferia este tempo remete a enfrentamentos mais agudos e imediatos, os quais impõem ao sujeito escolhas precárias (as quais são, muitas vezes, as escolhas possíveis) ou a determinação social entre a luta por liberdade dentro do escopo histórico da cultura e presença negra na sociedade brasileira.














Considerações Finais






Podemos constatar na análise proposta neste trabalho que os fundamentos éticos presentes na concepção artística da música posta como objeto de pesquisa estão diretamente ligados a uma concepção histórico-crítica da constituição da etnia negra brasileira. Os autores articulam os valores que permeiam o enfrentamento do preconceito e discriminação social da população e cultura negra no Brasil, evidenciando as nuances éticas compostas no enredo do cotidiano destas relações sociais.


Evidente que as contradições observadas nesta concepção artística expõem possíveis fragilidades discursivas, quando se pensa (equivocadamente) que uma arte musical deva retratar fiel e literalmente um posicionamento político ou filosófico.


Mas, considerando a contradição como elemento resultante da alienação moral constituída historicamente na concepção oficial da história cultural brasileira, entendemos que tal proposta artística transpassa esses meandros, oferecendo diferente oportunidade ética de se conceber a cultura brasileira e suas influências recebidas ao longo da constituição da sociedade brasileira, a partir do ponto de vista do negro que faz a luta social com consciência de classe e de origem étnica.


Pois, como afirma Barroco, “quando a ética se realiza como saber histórico, tendo por finalidade um conhecimento radical e totalizante, pode voltar-se para a crítica da moral cotidiana, para o desvelamento da alienação moral, os fundamentos e o significado dos valores, para a apreensão das possibilidades de objetivação concreta das exigências éticas humano-genéricas” (2008, p. 83), isto é, o humano alcança maior plenitude enquanto ser social, na medida em que supera as alienações morais que o distanciam das conquistas e possibilidades de liberdade que a humanidade oferece historicamente.

quarta-feira, outubro 07, 2009

O PECADO DE SE SENTIR LIVRE


Definitivamente, não é divindade alguma que me atribui e muito menos determina o que sinto.

Os sentimentos podem até suscitar dúvidas sobre o limite de sua existência no real, mas o que sinto está concretamente aqui. Porém, não tenho a posse do que sinto, pois este é propriedade da história.
E justamente por isso que, neste momento, me sinto mais humano. Não mais do que os outros, mas muito mais próximo da humanidade do que outros.
Outros como na voz do moralista, a qual realmente provoca sentimentos nos que lhe atribuem fé, mas em geral faz perdurarem aqueles sentimentos ruins que nos assombram, nos culpabilizam, nos penitenciam e nos impõem a contradição como pecado a ser temido e, no limite, ser eliminado pelo arrependimento.
Tenho sérias dúvidas do êxito do arrependimento, na medida em que tal postura imita a racionalidade num campo enredado apenas por emoções.
E as emoções não nascem da razão, elas nascem daquilo que a razão não alcança no momento e, quando chega este momento, deixa de ser razão para novamente criar condições de gestar uma nova emoção. As razões e as emoções assassinam-se entre si, mas nunca morrem, apenas renascem.
E a contradição, quando revelada, seria uma razão ou uma emoção?
Ora, claro que diremos que é uma razão, afinal o moralismo impingido na nossa formação nos faz temer ser ou participar de uma contradição, de forma (in) justamente proporcional aos sentimentos que temos como oposição desta contradição.
E o que remete oposição à contradição senão a emoção de querer superá-la? E perceba que o sabor da vitória por esta superação jamais aponta para o maniqueísmo estúpido, onde o “bem” e o “mal” moram, mas sim para a liberdade, por mais sofrido que o seu exercício seja.
A contradição não é razão nem emoção. Ela é fato e, portanto, se encrava na história concreta das razões e das emoções de forma que ouso a dizer que é para sempre.
Quantas vezes eu clamei para a humanidade libertar-se da contradição...
Mas como sou somente mais um humano que grita num deserto repleto de sedutores oásis de falso moralismo, me deleito apenas no prazer de exercer a liberdade de profundamente sentir as emoções do ato de superar as minhas contradições.
É um prazer infinitamente mais humano do que “pecar”.
Lamento sinceramente como estes belos anseios sobrenaturais se reproduzem em precários sofrimentos humanos que somente adiam o necessário conhecimento pleno do natural.

sexta-feira, setembro 18, 2009

ASSISTENTE SOCIAL

Arte: Anderson Mangolin
Rejeitada pelo Metrô para divulgação, com a alegação de "temática polêmica"...

Assistente Social?

Assistente Social Não sai, Realiza visita Institucional.

Assistente Social Não faz fofoca, realiza Mobilização por direitos.

Assistente Social Não conversa em vão, realiza atendimento Social.

Assistente Social Não escreve cartas, escreve encaminhamentos.

Assistente Social Não se senta para tomar cerveja, senta para reunião de equipe.

Assistente Social Não vai á casa de amigos, realiza visita domiciliar.

Assistente Social Não brinca, realiza socialização infanto-juvenil.

Assistente Social Não separa brigas, realiza mediação de conflitos.

Assistente Social Não liga, faz contato institucional.

Assistente Social Não dá, ou doa nada, concede beneficios.

Assistente Social Não sufoca ninguem, realiza supervisão de serviço.

Assistente Social Não dorme, fica acamado por pouco tempo.

Assistente Social Não monta panelinhas, supervisiona grupos.

Assistente Social Não tem pre-conceitos, faz diagnostico social.

Assistente Social Não se situa no espaço, faz diagnostico socio-espacial.

Assistente Social Não segue ou persegue ninguem, realiza acompanhamento.

Assistente Social Não preenche tabelas, realiza estatisticas.

Assistente Social Não escreve textos, escreve artigos cientificos e relatorios.

Assistente Social Não pratica socialização entre areas, realiza intersetorialidade.

Assistente Social, enfim, Não faz caridade, Intervém na sociedade por Democracia, Cidadania e Direitos Sociais.

Esta é a minha profissão...

Quando tenho ódio dela, este dura 4,5 segundos, tempo suficiente pra superar a contradição e começar a elaborar mais uma estratégia de enfrentamento da questão social.

Ser é Lutar!


domingo, fevereiro 24, 2008

Marquinhos, a esmola e a virtude.


Tarde de chuva fina em São Paulo. Mais uma tarde chuvosa.

No farol vermelho da rua congestionada param os carros. Mais um farol vermelho.

Passando entres os carros, um a um, um “menino de rua” pedindo esmola. Mais um menino.

Ao se aproximar de mim, o menino pergunta: “Tem uma moeda?”. E escuta minha resposta: “Não lhe dou uma moeda porque um menino, na sua idade, deveria estar na escola há essa hora”.

“Você nem sabe quantos anos eu tenho!” Exclamou o menino, com semblante de adulto sério. Ao perguntar seu nome, ouvi um “Marquinhos” em tom baixo, seco, mas com voz de menino.“Marquinhos, vou voltar um dia e quero que você me diga que está na escola, certo?”.

Avancei com o carro ao farol verde e, olhando para Marquinhos, não obtive retorno da minha proposta. Somente um olhar fulminante e intenso de dúvida e, talvez, raiva.

Outra tarde, mesmo farol. De longe, em outra faixa de pista, vejo Marquinhos novamente entrecruzando os carros. Mão pequena em posição côncava encontra-se com mão adulta em posição convexa. Cai da segunda mão o objeto que concretizou o que chamam de “virtude”.

A virtude da caridade e, conseqüentemente da esmola, fez a mão do adulto erguer-se e este, o adulto, a pedir a repetição de Marquinhos do gesto corporal que roga ao “Pai” ao “Filho” e ao “Espírito Santo”. Marquinhos abre de vez o sorriso, repete o gesto do adulto e abre-se o farol verde. E o carro do adulto avança, com este sorrindo de virtuoso “regozijo”.

O menino na rua finalmente respondeu a uma proposta. Mas ficou a dúvida.

Estar na rua por que? Para fomentar virtudes?

Guardar moedas no carro para que? Exercer a caridade?

Exercer a caridade para que? Para acumular virtudes?

Eis o ciclo! O ciclo da confirmação “predestinada” da pobreza.

Pobreza de que?

Ao presenciar o trabalho infantil ou qualquer situação que avilte os
direitos das crianças e dos adolescentes, ligue para o Conselho Tutelar de sua cidade.


Ser é Lutar!


Luciano Alves

terça-feira, setembro 11, 2007

Sobre "Ser é Lutar!" - Carta a uma amiga

" Ser é Lutar!" significa muito para mim...



Considero sim, minha mensagem ao mundo de que minha experiência de humano e, sobretudo, brasileiro, foi (e é) permeada de lutas e batalhas contra as mais diversas formas de exclusão e discriminação que não preciso enumerar para você.

Pode parecer até contraditório, mas não gosto de falar em "vitórias" e "conquistas" na vida (palavras que expressam o objetivo de todos nas lutas e batalhas), mas tenho certeza que as que consegui até hoje foram fruto dessa CONSCIÊNCIA.

Sei que pode até soar como um reforço crítico e egoísta de uma coisa que, não só eu, mas milhões de brasileiros fazem todos os dias. No entanto, não vejo assim.

Uso esta frase desde 1999 ou 2000, e por incrível que possa lhe parecer, esta mensagem não tornou minha vida mais "pesada ou difícil". Pelo contrário. Hoje tenho o pleno domínio dela, de seus limites e possibilidades e de sua trajetória histórica.




E, me expressando assim, espantei DIVERSOS "fantasmas" que rondavam meu imaginário, sempre no sentido de me empurrar na CRENÇA que me ensinaram de que ser brasileiro, filho de nordestino, pobre, mestiço, morador da zona leste, etc é "porque Deus quis assim" e que aceitar tudo isso é "DESTINO".


E entendendo que ser brasileiro é aprender a preencher com ética a grande lacuna entre o idealismo e a realidade, creio que "Ser é Lutar!" não transmita algo como um "calvário" como condição de "ser" para quem lê. Mas, passa a idéia de que "ser" sem "lutar" não é "ser", é simplesmente "existir" sem humanidade. Por que entendo que TODOS os animais lutam para somente para sobreviver, pois eles não têm, assim como nós humanos, a perspectiva do SER.



Enfim, lutar não é só pegar em armas e matar um suposto inimigo. É atuar eticamente no mundo a partir do que a história dele (mundo) nos mostra e com o objetivo de construir nossa própria história.



Agradeço demais suas observações. Elas abriram mais uma porta de entendimento entre os humanos.



Um grande abraço,



Ser é Lutar!

terça-feira, dezembro 27, 2005

Por que Libertar-se. (a começar por 2006) ou agora...

Neste mundo de :
Felicidades enlatadas
Sentimentos maquiados
Idéias e ideais recauchutados
Prazeres mecânicos, eletrônicos e falsos
Natais angustiantes e Anos Novos temerosos
Fé empacotada em embalagem consumista
Sexo vilipendioso à essência humana
Lindos padrões morais apodrecidos pela hipocrisia.

Urge libertar-se!

Libertar-se é perceber que o ontem é a história que você construiu
O hoje é a dialética desta história
E o amanhã é mais uma oportunidade de se dar mais um passo para realizar sua utopia
Pois, tanto o homem quanto a mulher são iguais na essência
O que os fazem parecer diferentes é o desejo de ser o que sempre se quis ser
Mas não se consegue descobrir que já se é.

Libertar-se é acreditar que seus “defeitos” e “qualidades” não são dicotômicos
Mas fazem parte de uma complexa e dialética realidade
Onde um adjetivo pode ser “defeito” para uns e “qualidades” para outros
Onde suas inspirações e aspirações clamam a libertação contínua e diária
E onde nosso principal desejo se torna mais doce e forte: o amor
Não somente o amor conjugal, mas o amor para com a vida, a família, os amigos, o trabalho, a cidade, o país, o planeta e o cosmos.

Libertar-se é descobrir que a fé não se limita a divindades
A fé é o combustível da luta. Qualquer luta
Perdemos a fé quando a queremos somente para nós
E quando a impomos para os outros.

Libertar-se é descobrir que o amor tem movimento
Que ele é perfeito somente dentro de nós, no nosso íntimo
No entanto, quando ele é exteriorizado passa a ser imperfeito
Pois sempre buscará sua evolução na relação com sua gênese.

Portanto, liberte-se e viva!