(+) VENOSO E ARTERIAL (-)

Venoso é veia, veneno, sentimento. Arterial é artéria, ar, pensamento. Aqui você vai encontrar um pouco do conteúdo vital que circula em mim...

Segunda-feira, Junho 27, 2005

Retrô

Retrô é retrocesso
Retrospectivas vãs
Retroativismos hipócritas
Tudo que vejo é retrô
Serei eu também?

Exceto uma ou outra progressividade
Está o retrô
Inversamente concebido nesta falsa existência
Onde deveria ser meio
É fim

Se o que pensamos é derivado daquilo que fazemos
E, logo, o que fazemos é derivado daquilo que pensamos,
Por que negar esta dialética ao vislumbrar o passado?

Na vala do retrô estão as ideologias
Quase todas se apóiam no retrô
Para aliviar o medo de refletir a si mesmas

A fé não questiona mais a verdade
Criou suas próprias verdades
E as sustentam no retrô
Na nostalgia mórbida

A filosofia respira vacilante
Busca o ar puro da racionalidade
Num ambiente sufocante
De ar mofado pela banalidade

A música e a arte
O cinema e o teatro
A poesia e a literatura
Quando não reciclados pela estupidez capitalista
Nos remetem lembranças doces
Mas pouco fomentam a verdadeira vida

O amor continua sendo inexplicável na sua essência
Por excesso dele o ser humano sente-se solitário no desejo de amores novos
Por carência dele se deleita, em massa, em amores recauchutados

Importa amar o que se quer
Para transformar o que se tem
Sem retrô e nem complô
Com novas raízes e matrizes

Revolucionar o velho
Para esculpir o novo


Luciano Alves

Eu aprendi que...

Ser brasileiro é aprender a preencher com ética a grande lacuna entre o idealismo e a realidade.

Quarta-feira, Junho 08, 2005

Elevador é quase um templo...

Prometi a eu mesmo não usar este blog para relatar fatos do cotidiano. Mas esse merece pelos desdobramentos e posturas que se realizaram.
Era dia 04/05/2005, quando o Assistente Social chegava num condomínio da Zona Sul para mas uma Visita Domiciliar (não estranhe – eu atendo uma parte da classe média que hoje é falsamente média).
Ao adentrar pelo portão principal, avistei um elevador e perguntei ao porteiro se ele me levava ao 9º andar.
- Não! Siga aquele rapaz que a sua esquerda terá um elevador. – disse o porteiro, um sujeito claramente descendente de nordestino, assim como eu.
Então, quando cheguei ao local percebi que estava no estacionamento e pensei: “olha, se esse elevador for o de serviço não vou deixar barato dessa vez, já que de outras fiquei com receio de envolver o nome da instituição”. Quando o 9º andar chegou, dei de cara com a porta da cozinha do apartamento que visitara...era o elevador de serviço. E eu, puto da vida, tentei disfarçar para a mulher, quando a mesma perguntou:
- Porque você veio pelo elevador de serviço?
Ah, foi a minha glória...Disse que fui encaminhado pelo porteiro, pois ele tinha dito que esse era o único que me traria para cá. E foi a senhora ao hall de entrada e me chamou para acompanhar a chegada do elevador social. Nisto, disse a ela que me sentia na obrigação de tomar minhas providências, quando ela, surpreendentemente, disse que me acompanharia. Então, fiz o atendimento com tranqüilidade, mas preparando meu espírito para o que iria ocorrer daqui a pouco.
A Visita acabou e desci pelo elevador social, juntamente com a senhora. Ao chegar no térreo, percebi que este elevador se situava no outro extremo da entrada principal, indicado como uso em andares ímpar. Fui direto ao porteiro e falei:
- Meu amigo, é o seguinte: quero saber porque você me encaminhou para o elevador de serviço?
- Porque você me perguntou se este da frente parava no 9º andar. – disse ele, assustado.
- Pois então, você deveria ter me encaminhado para o outro no qual acabei de sair! Isto é discriminação! Não vou falar com você sobre isso, por favor, chame seu chefe. – Disse eu, já parecendo um Pitbull.
- Eu esqueci o nome dele! – disse o porteiro, de maneira sarcástica.
Então disse a ele que se não chamasse o chefe dele agora eu iria na polícia. Quando um segundo porteiro entrou e quis apaziguar, dizendo que não era discriminação porque nunca ninguém tinha reclamado.
- Pois é, sou eu o primeiro a reclamar. Por favor, chame seu chefe. – disse o Assistente Social quase enlouquecido.
Presenciei ele falando com o chefe, quando me retorna dizendo que o chefe pedia para eu subir no apartamento dele para conversar.
- De forma alguma! Olhe aqui, entregue este cartão para seu chefe. Se ele achar que me deve satisfações vai me ligar. Eu dou prazo de 02 dias, senão volto com a polícia. – disse eu.
Entrei no táxi e fui contando ao taxista (amigo meu) o ocorrido, quando ele me falou:
- Luciano, se você der 02 dias ele vai inventar mil desculpas para se safar...Se eu fosse você voltaria agora pra lá.
- Então dá meia volta que o bicho vai pegar! Gritou o emputecido Assistente Social.
Chegando lá o chefe já estava na porta, desesperado e pedindo explicações para os porteiros. Então entrei e relatei o fato. Ele disse a seguinte pérola:
- Meu amigo, deve ser um mal entendido. Porque muitas pessoas pegam o elevador de serviço e nunca reclamaram e também que meus funcionários sabem que já tem lei para isso e que a escravidão acabou.
- Olha cara, é o seguinte: eu fui discriminado sim, não sei se pela cor da pele, pela aparência...a questão é que fui encaminhado ao elevador de serviço sem prévio questionamento de meu objetivo no condomínio. Isto é discriminação sim! Não importa se outras pessoas não reclamam, pois cada um tem sua consciência. E isso não te nada a ver com escravidão e sim com mera distinção de pessoas na circulação no condomínio. – disse eu ao trêmulo síndico.
Nisto, entrou uma moradora, a qual foi imediatamente abordada pelo síndico que a perguntou se não era normal “algumas” pessoas subirem pelo de serviço.
- Ora é claro que é! Eu mesmo tenho uma amiga, uma ex-empregada, uma pessoa de cor, que até hoje sobe pelo de serviço e nunca reclamou. E ainda, o porteiro deve ter visto seu crachá pendurado e pensado que você fosse fazer algum serviço. – disse a horrenda senhora.
- Ah, então o parâmetro é esse? Eu estou com alguma ferramenta na mão? Estou carregando algo grande e pesado? Não! Eu duvido que se chegasse um delegado aqui e mostrasse o crachá vocês encaminhariam para o de serviço. Olha, está mais do que claro que foi discriminação e já que o senhor não quer se retratar irei procurar meus direitos! – disse o espumoso Assistente Social.
- Não, não, por favor não faça isto! Olha, quero que o senhor é.....me......é.......me desculpe! – disse o síndico.
Já contente com a retratação eu disse:
- Olha, só não irei na polícia se o senhor me prometer que vai mudar o procedimento de atendimento, perguntando ao visitante a que veio fazer no condomínio. E eu voltarei aqui para conferir.
- Sim, sim, claro! Vou conversar, foi despreparo deles e precisamos mesmo conversar sobre isso. Pode voltar que o senhor encontrará tudo mudado.
Nisto, fui...

Não vou fazer nenhuma defesa pró-etnia ou raça. Só quero deixar algumas perguntas para que possamos pensar ou debater:

Por que eu não denunciei a discriminação logo na primeira vez? Será que o nome da instituição atrapalharia?
Por que eu queria dar 02 dias de prazo para alguém que cometera um crime?
Por que muitas pessoas não reclamam de serem encaminhadas indevidamente ao elevador de serviço?
O que é uma “pessoa de cor”?
Um crachá pode determinar o “tipo” de pessoa? Existe “tipo” de pessoa?
Por que o síndico gaguejou tanto para pedir desculpas?
O que é culpa?
Porque confundem escravidão com discriminação?
Se eu e o porteiro somos descendentes de nordestinos, porque estivemos em lados opostos quando o assunto era o mesmo que fizeram nossos pais e avós deixarem suas raízes culturais para vir a São Paulo?

Mesmo não concordando com o termo “preto de alma branca”, deixo uma música do Jorge Aragão.

O espelho sempre reflete o que não queremos enxergar.

Ser é Lutar!





Identidade
Jorge Aragão


Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai...

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade